Confira a entrevista da engenheira agrônoma Maridélia Gonzaga sobre agrofloresta e sua atuação na Fazenda da Toca.

‘Fui picada pelo bichinho da agrofloresta’, afirma agrônoma que produz 1 tonelada de alimentos

A engenheira agrônoma Maridélia Gonzaga nasceu na roça e voltou para o campo com o diploma e tese de mestrado debaixo do braço.

Durante os estudos, a filha de agricultor, que pesquisava como conciliar pe rodução com preservação, ouvia o tempo todo de uma fazenda modelo. E se interessou tanto pelo sistema produtivo baseado na agrofloresta que chegou ao “local dos sonhos” e passou a atuar como voluntária.

Hoje ela comanda a horta da Fazenda da Toca, administrada por Pedro Paulo Diniz, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2018.

E, além de realizar o desejo de se reconectar com a natureza, transformou o local em um polo de educação e de produção, onde, em meio hectare, colhe uma tonelada de alimentos sem agrotóxico por mês, em um ritmo que respeita o calendário lunar e promove o controle biológico.

A primeira vez que ouvi falar da Toca, eu estava fazendo mestrado e pesquisava como conciliar produção com preservação. A fazenda era um modelo, produzindo nesse sistema agroflorestal, e também em larga escala. Fiquei encantada e falei: ‘Nossa, meu sonho é trabalhar e morar na Toca’.

Meu sonho foi realizado há um ano. Antes de ser parceira [na horta], eu fui voluntária, ajudando nos cursos de agrofloresta. Como estava escrevendo minha dissertação, procurei algo prático. Ao final do curso de três dias, fui picada pelo bichinho da agrofloresta. Falei: ‘É isso que eu quero para minha vida’.

É uma produção que aproxima mais as pessoas do ambiente. As pessoas se afastaram disso. Mesmo estudando bastante, tem muita teoria, mas falta esse contato. E a agrofloresta tem toda uma diversidade de espécie, todo esse cuidado com a terra, com a gente, com os alimentos. Tem essa conexão da pessoa com outras pessoas, das pessoas com a terra. Se você se alimenta melhor, seu corpo está melhor, sua mente também e aí vem uma sociedade melhor. É minha crença na agrofloresta.

Nessa horta, numa área produtiva de meio hectare, a gente produz mais de 40 espécies. A gente respeita a época de cada uma e tenta seguir o calendário lunar. A gente produz desde brócolis, alho, alho-poró, morango, chuchu, tudo o que você imaginar de hortaliças e algumas frutas.

É uma parceria com a Fazenda da Toca é super vantajosa para ambas as partes. Paguei pelo arrendamento da terra, mas considero que a horta é de todo mundo. O programa de aprendiz, as visitas, acontecem aqui. Eu também aprendo muito com eles, a produzir, a conservar o solo, a água e a fazenda. É uma troca grande.

A gente consegue produzir por mês, nesse sistema agroflorestal, cerca de uma tonelada por mês. E esse alimento é livre de adubos químicos. A gente tenta juntar os princípios da floresta na agricultura, planta em diversidade. Uma espécie contribui com a outra. Em cima e embaixo do solo. Então esse alimento não vem rico em adubo. Vem com a energia vital da terra.

Aqui a produtividade é maior do que na convencional, onde se planta uma espécie por canteiro. Na horta agroflorestal, no espaçamento normal plantamos outras espécies. Por exemplo, entre os brócolis a gente planta um alface, que tem crescimento mais rápido, e no centro outras mais rápidas ainda, como rúcula, agrião, coentro. Ela se ajudam. E o pessoal fala “Ah, você não faz controle de praga?” Aqui a gente não faz.

Na agrofloresta, não tem uma receita de bolo, é um aprendizado todos os dias. Então uma coisa que deu certo no inverno, no verão você já tem que mudar, então é observação constante. E isso que é apaixonante, porque você está observando o tempo todo, aprendendo com a natureza e aplicando as técnicas que você aprendeu

Todo dia eu colho para o restaurante da fazenda e na sexta-feira é o dia que tem mais colheita, que é para a feira [em São Carlos (SP)] e uma pessoa que compra para vender em São Paulo. Aqui na horta é um ganha ganha absurdo, de muitas coisas além do dinheiro. É uma agregação de valor muito maior. Pensando em todo o conhecimento que essa horta gera para a gente, para os aprendizes, para as pessoas que visitam, esse é um ganho imensurável, o maior que a gente tem. E de dinheiro a horta se mantém.

Os alimentos são melhores, duram mais e não têm agrotóxico, defensivo, nada. A gente está o tempo todo com passarinhos, joaninhas, vários insetos. Dessa contaminação a gente está livre. Por isso essa horta é modelo para a agricultura familiar, para assentamento, colônias, enfim, onde existam pessoas que queiram cuidar da terra. Esse é o futuro.

Eu sou da terra, nasci no sertão da Bahia. A gente já plantava feijão, milho, e lá não chovia. Saí, estudei na Unesp, onde uma turma de cem alunos tinham mais pessoas interessadas no agronegócio, eu era chamada de bicho grilo. Quando terminei eu pensei: “Nossa, agora eu sei a técnica, já morei na roça, então agora é hora de voltar e tentar fazer isso”.

Meu pai era um agricultor que fazia o que ele aprendeu com os pais, mas sabia dos antigos, que já usavam essas coisas plantadas juntas, que hoje a gente chama de consórcio. E os índios plantavam e até hoje ainda plantam assim.

As pessoas não têm informação do que o agrotóxico causa. Tem várias pesquisas que falam desses radicais livres. As pessoas têm o poder de mudar. Na produção, tem o uso consciente do agrotóxico e tem o uso deliberado, sem prestar atenção. E as pessoas acham que é necessário. Em alguns locais, se não tiver agrotóxico, não produz o alimento, porque sempre quer tomate e brócolis o ano inteiro. E para isso tem que usar agrotóxico e adubo para produzir.

Se não fosse o Pedro Paulo a horta não existia, foi ele que teve essa iniciativa. Ele vem aqui, é uma pessoa iluminada, sonhador mesmo. É um exemplo a se seguir. E ele vem colocando a agrofloresta em prática é a pessoa para disseminar a agrofloresta. Nada melhor do que você vivenciar e depois passar para outras pessoas.

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