Reportagem publicada no Observatório do 3° Setor

No dia 25 de abril, ocorreu o 3º Fórum Rede do Bem São Paulo. O evento teve o objetivo de promover o diálogo entre as organizações da sociedade civil de base comunitária e toda a sociedade, e capacitar as organizações para um maior fortalecimento institucional. Nesta edição, houve a palestra ‘Fome Zero e Agricultura Sustentável (ODS 2)’, com Jaison Lara, permacultor, educador e articulador cultural.

Um dos objetivos da Rede do Bem é divulgar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), o programa possui 17 metas relacionadas aos direitos humanos e o seu maior desafio é a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema.

Com base nisso, Jaison Lara inicia a sua apresentação com uma famosa frase do sociólogo Josué de Castro: “O acesso à alimentação é um direito humano em si mesmo, na medida em que a alimentação constitui-se no próprio direito à vida. Negar este direito é, antes de mais nada, negar a primeira condição para a cidadania, que é a própria vida. ”

Lara afirma que o direito ao alimento não é acessível para toda a população brasileira. O problema da subnutrição, por exemplo, é algo que atinge todas as classes sociais, mas principalmente as que possuem menor assistência do poder público.

De acordo com o relatório ‘O Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional 2018′a obesidade se tornou a maior ameaça nutricional na América Latina e no Caribe. Quase um em cada quatro adultos é obeso. O sobrepeso afeta 7,3% (3,9 milhões) das crianças menores de cinco anos de idade, um número que excede a média mundial de 5,6%.

Já a fome afeta 39,3 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe, 6,1% da população da região. Entre 2015 e 2016, o número de pessoas subnutridas cresceu em 200 mil pessoas. Entre 2016 e 2017, o aumento foi de 400 mil.

Para explicar esse fenômeno, Jaison Lara ressalta que existem diversos tipos de alimentos que a população consome. São estes os in natura, alimentos obtidos diretamente de plantas ou animais que não sofrem qualquer alteração após deixarem a natureza; os alimentos processados, que são feitos essencialmente com a adição de sal, açúcar, óleo ou vinagre a um alimento in natura para aumentar seu tempo de conservação; e os alimentos ultraprocessados, que passaram por técnicas e processamentos com alta quantidade de sal, açúcar, gorduras, realçadores de sabor e texturizantes. Estes possuem um perfil nutricional danoso à saúde.

“Isso nos leva a pensar no termo de deserto alimentar, que envolve uma série de aspectos sociais e econômicos. Ele ocorre quando precisamos andar mais de 400 metros para conseguir alimentos in natura. As regiões mais pobres e mais ricas têm diferentes acessos aos alimentos de verdade”, diz.

O educador ainda reforça que falar sobre alimentação saudável no país envolve o debate sobre privilégios, desigualdade social e violação dos direitos humanos. Uma das soluções para transformar esse cenário, apontada pelo especialista, é a agricultura familiar.

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros são produzidos por esse tipo de cultivo“A grande indústria agropecuária aplica seus investimentos na produção de soja e milho, que na verdade vai alimentar o gado para a produção de carne. Não caiam nessa de que o ‘agro é pop’. A gente já produz alimentos o suficiente para alimentar todo mundo, então por que ainda existe fome?”, questiona.

No Brasil, os últimos dados revelam que em apenas um ano o país perdeu ou desperdiçou 26,3 milhões de toneladas de alimentos. Isso representa quase 10% dos alimentos disponíveis. Enquanto isso, 5,2 milhões de pessoas no Brasil passam fome“Nas regiões menos abastadas é nítida a diferença de oportunidades de alimentação. Muitos alunos, por exemplo, vão para a escola apenas para se alimentar. Com fome, ele não entende nada e não há o desenvolvimento. Quando a comida se torna especulação e poder, fica difícil distribuí-la igualmente”.

Casa Ecoativa

Jaison Lara é um dos colaboradores da Caso Ecoativa, um espaço sociocultural multidisciplinar de ecologia, turismo e educação, que está localizado na região da Ilha do Bororé, uma APA (Área de Proteção Ambiental) da Zona Sul de São Paulo.

A iniciativa promove projetos de democratização dos alimentos e fomenta uma rede de agricultores locais. A ideia é que os consumidores paguem mensalidades entre R$ 100 e R$ 120, e com isso, possam retirar todo sábado uma cesta com seis ou oito itens, colhidos horas antes. Os produtos variam de acordo com a época, mas é possível encontrar diversos tipos de frutas e hortaliças. A cooperativa conta com 30 produtores familiares, entre orgânicos e convencionais.

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